Corpo & mente, Filosofia, Hormônios, Intelecto & intuição, Liberdade, Mulher, Sexo

Dia do homem

DIA DO HOMEM 2

Hoje, 15/07, é Dia Internacional do Homem.

As comemorações foram iniciadas em 1999 por Dr. Jerome Teelucksingh em Trindad e Tobago, apoiadas pela Organização das Nações Unidas (ONU), e vários grupos de defesa dos direitos masculinos da América do Norte, Europa, África e Ásia.

No Brasil, desde 1992, o Dia do Homem – embora pouco divulgado – é comemorado no dia 15 de Julho, por iniciativa da Ordem Nacional dos Escritores.

Os objetivos principais do Dia Internacional do Homem são:
1. Melhorar a saúde dos homens (especialmente dos mais jovens);
2. Melhorar a relação entre gêneros;
3. Promover a igualdade entre gêneros;
4. Destacar papéis positivos de homens no combate ao sexismo, nas conquistas e contribuições em comunidades, famílias, casamento e criação dos filhos.

Viva!!!

Padrão
Intelecto & intuição
A complexidade do universo jamais poderemos abarcar. Seja o que for que encontremos como suposta verdade, será sempre nosso recorte dela. A grande maioria das forças que nos regem são desconhecidas. A ciência tenta mas não consegue explicar inúmeros fenômenos. O avesso de cada um permanecerá misterioso. Mesmo que se trabalhe incansavelmente para acessá-lo, tornando-se mais e mais íntimo de si, é certo que desse poço sem fundo a surpresa sempre virá. Ainda assim, vale a labuta homérica de seguir mergulhando no abismo, fazendo contato. Depois de cada mergulho, quando uma pequena luz se acende e vemos a boca (a saída) da caverna, voltamos ao mundo com os sentidos um pouco mais límpidos e aguçados pra quem sabe, rever nosso recorte da realidade. É um sem-fim.
Padrão
Corpo & mente, Intelecto & intuição

Cartografando a experiência

“A repartição de intensidades”

A Cartografia é a arte de desenhar mapas. Mas pode também ser usada para definir o modos operandi de uma atitude por meio da qual podem ser vividas, vistas, revistas, sentidas, escolhidas e editadas as experiências na vida. Trata-se de uma proposta construtivista, por meio da teoria das multiplicidades, para pesquisa-intervenção e produção de subjetividade, sistematizada pelos pesquisadores brasileiros Eduardo Passos, Virgínia Kastrup, Liliana da Escóssia e Sueli Rolnik, entre outros, em seu livro “Pistas do método da cartografia”. O conceito deriva do pensamento de Gilles Deleuze e Félix Guattari, franceses do século XX, e tem como um de seus importantes marcos o texto Rizoma, publicado inicialmente por D&G de forma isolada em 1980, e que depois tornou-se a introdução da série Mil Platôs, dos mesmos autores.
Rizoma descreve a experiência de cartografar, que seria a produção de uma rede de conexões, com a intenção de mobilizar uma outra leitura, uma outra escuta, ou mesmo a utilização de todos os sentidos ao mesmo tempo enquanto se está em campo de pesquisa. O pesquisador cartógrafo está implicado, mergulhado por inteiro no campo. Ele não é mais apenas observador imparcial, até porque esta idéia é ilusória, já que a própria presença do pesquisador já modifica o meio de pesquisa. O cartógrafo então se coloca disponível dentro deste coletivo de forças, atravessamentos, afetos, nos platôs que são as zonas de intensidade independentes e interconectadas. Esta idéia de rizoma como a raiz de uma planta nos ajuda a entender até mesmo a forma como naturalmente pensamos ou como o conhecimento se organiza, de acordo com a interação com o mundo.
No texto Como criar pra si um corpo sem órgãos, que consta no volume 3 da série Mil Platôs, D&G referem-se ao corpo não funcional, o corpo de intensidades: “O corpo é tão somente um conjunto de válvulas, represas, comportas, taças ou vasos comunicantes: um nome próprio para cada um, povoamento do CsO, Metrópoles que é preciso manejar […]. O que povoa, o que passa, o que bloqueia?”
Muito diferente da proposta de rizoma é a estrutura tradicional de uma pesquisa hierárquica, em forma de árvore, vertical, com começo, meio e fim, uma unidade. Assim é a maioria dos livros produzidos no ocidente, por exemplo. Mas D&G propõem a estrutura aberta e horizontal, rizomática, em que se tem perguntas como pontos de partida, e se mantêm constantemente conexões, guiadas por aquelas perguntas, mas sem um percurso pré-estabelecido. Com o caminhar, ao perceber que se está de novo recaindo numa fórmula engessada, se traça uma linha de fuga, para uma nova e ainda não explorada rota, completamente própria daquele objeto de pesquisa, daquele contexto em seu determinado tempo e com linguagem adequada. Admitindo-se que a realidade não se repete um segundo sequer igual ao outro, não faria de qualquer maneira sentido repetir fórmulas para se chegar a resultados esperados, e sim cria-las conforme as circunstâncias demandam e, em resposta às demandas observadas e captadas pelos sentidos, deixar emergirem respostas.
Sendo assim, não há risco de não se chegar no resultado esperado, pois não há um resultado esperado, e sim a construção das respostas conforme se caminha. A multiplicidade é advinda não só do inconsciente, mas torna-se também parte do processo consciente de percepção e resposta. Rizoma é uma multiplicidade heterogênea sem unidade, mas com a possibilidade de conexão, sem hierarquia, sem centro, sem organização piramidal. O rizoma não produz significação, mas rotas de fuga. É um mapa, resultado de um processo cartográfico, mas é um rascunho sempre, é processo, implica em constante transformação. Até pode ter um planejamento, mas este pode ser modificado conforme se caminha nas conexões, relacionamentos, atravessamentos. Segundo D&G, há muitas entradas possíveis, muitas saídas possíveis. É possível percorrer o caos, o caos é possibilidade, mas se há somente caos absoluto não ocorre produção, e sim apenas loucura.
O rizoma e a árvore não são necessariamente opostos. Dos rizomas nascem árvores, e das axilas dos galhos das árvores podem surgir novas rotas de fuga, dando origem a novos rizomas. Toda árvore é um possível rizoma. Mas todas as linhas de fuga que deram origem a um rizoma sempre são facilmente capturadas pelos padrões. Exemplos disso são, na cultura, o movimento punk, ou o hippie. Portanto cartografar exige esforço constante e incansável.
Sobre os perigos de, ao usar um método tão aberto, perder-se no caminho, tornando-se a construção de respostas inócuas ou anêmicas, D&G alertam sobre a necessidade das injeções de prudência, de se ter algumas linhas ou fios condutores, para haver produção e alguma inteligência. Cartografar forças que compõem determinado fluxo. Para isso é preciso ser capaz de medir e administrar as intensidades, as medidas, pra que as tensões que surgem sejam tensões de relacionamento e não de ruptura, que não possibilitariam pesquisa e criação. Estas medidas não são pré-definidas, mas constituídas ao longo da pesquisa, do caminhar.
A cartografia se opõe à cópia, à reprodução. Mapear é diferente de decalcar. Mapa é produzido ao longo do percurso, como quem está percorrendo um espaço e vai construindo o mapa simultaneamente. É a própria atividade de cartografar. Mas ainda seria possível colocar um novo mapa sobre uma cópia, decalca-lo porém mapear sobre ele. Criar, proliferar, multiplicar sobre a cópia. O rizoma é uma instância de produção de desejo, porque é aberto. E o desejo pode ser usado como fonte de produção. A cartografia é a garantia de que o manejo com as experiências da vida seja legítimo, genuíno, de que não se torne uma cópia, um clone de outras experiências.
 
Referenciais bibliográficos
DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Felix. Rizoma. In Mil Platôs, Vol. 1. São Paulo: Editora 34, 2011.
DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Felix. Como criar para si um corpo sem órgãos. In Mil Platôs, Vol. 3. São Paulo: Editora 34, 1999.
PASSOS, E.; DA ESCÓSSIA, L.; KASTRUP, V. Pistas do método da cartografia – pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2012.

Ps.: Este texto foi inspirado em minhas leituras e notas de aula durante a disciplina “Pesquisa em artes – a cartografia como método”, ministrada pelos professores Renato Ferracini, Sérgio Carvalho e Silvio Galo na pós-graduação do Instituto de Artes da Unicamp, durante o segundo semestre de 2013. 
Padrão
Corpo & mente, Intelecto & intuição, Liberdade, Yoga no dia-a-dia

“Devemos cultivar nosso jardim.”

A frase acima encerra a obra Cândido ou o otimismo, publicada em 1.759 pelo filósofo iluminista francês Voltaire (1694-1778). Dez anos antes, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), filósofo iluminista suíço, publicava aos 37 anos de idade seu Discurso sobre as ciências e as artes. Contemporâneos a um fenômeno de deslumbramento social pelo progresso destas áreas do saber, que hoje fazem paralelo com a tecnologia, ambos registram publicamente há dois séculos e meio, por meio de ironias literárias, sua preocupação com os desdobramentos da crise do modo de produção feudal, a inevitável transição para o capitalismo e suas consequências para a humanidade.
É possível reler Voltaire à luz do pensamento de Rousseau, e a análise do uso da palavra devemos revela que tais pensadores assumem-se como “abre olhos sociais” e estimulam a humanidade a perceber que a maneira como se recorre a conteúdos subjetivos privados é decisiva para guiar  ações diante de situações nunca antes vividas, de modo a manter  coerência às verdades profundas.
A expressão nosso jardim ganha sentidos como nossa verdade, ou nossa almanossa essência mais profunda, única, indivisível, inconfundível e não está à venda. Não está (ou não deveria estar) à mercê de modismos ou rebuscamentos, fantasias ou devaneios, “coroas de flores”, nas palavras de Rousseau, que não contribuam para o REAL bem-estar humano. O que é essencial não confunde-se, não mimetiza-se a padrões locais ou rende-se a modos de ser e de produzir externos a si, só porque em determinados momentos lhes pareçam mais convenientes.

Visto o momento em que a obra foi escrita, a idéia de cultivar indica a ação de, por meio do auto-cuidado, manter-se dono das próprias condições de trabalho e sobrevivência, ou seja, de não subjugar-se e não permitir que senhor algum torne-se dono daquela força vital, daquela mente, daquela alma. Supostamente seria esta uma condição para a vida digna. A metáfora diz respeito à atenção constante, ao exercício das virtudes, ao auto-estudo, ao cultivo do que se tem de mais precioso: a base, a fonte de nutrição e sustentação, a subjetividade privada, a sanidade física e mental individual. Há que mantê-la viva, independente das condições de temperatura e pressão ambientais, da situação do governo, dos modos de produção intelectual vigentes, da mídia e de quaisquer forças opressoras. Quem tem seu jardim interno bem cultivado tem (quase?) tudo.

Padrão