Aula de Yoga

CURSO nov2014-TPM fatos e mitos 3

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Como está seu corpo hoje?

Na última vez em que estive em Pune, Índia, estudando no RIMYI[1], ouvi de BKS Iyengar[2], ao ensinar um dos professores do Instituto, que sua perna estava prepotente, que se recusava a cooperar no Asana[3]. Aquela perna preguiçosa, parecia satisfeita com o próprio desempenho e, iludida, havia estagnado num patamar aquém de suas possibilidades. Sr. Iyengar inquiria severamente o professor se pretendia continuar permitindo que isso ocorresse.  Você acorda de manhã e quando vai se espreguiçar nota seu corpo estranhamente mais rígido que de costume. Faz uma varredura na memória tentando encontrar razões físicas. Não encontra nada. Levanta-se, vai até a cozinha, bebe água. Ainda um pouco sonolento deixa cair algo no chão. Abaixa-se pra pegar, e agora um pouco mais acordado, percebe os músculos das pernas, abdômen e das costas teimosos, cansados, não respondem adequadamente. Segue o mistério. Uma gripe? Noite mal dormida? Não. Você está se esquecendo das causas emocionais. Uma discussão, uma preocupação aguda com alguém, um episódio de angústia são algumas das emoções que podem causar rigidez e fadiga muscular.  
Usar para partes do corpo adjetivos geralmente empregados para personalidade ou comportamento das pessoas é um interessante recurso para estimular a conexão corpo-mente. Este excelente professor ao qual Iyengar se dirigia, também excelente praticante, não estava percebendo que há anos executava aquele Asana sem conseguir a máxima cooperação de sua perna. Ele achava que estava comandando àquela parte do corpo que fizesse o que ele queria, mas não estava. A perna permanecia com áreas escuras, sem luz, sem penetração da consciência. Ou seja, havia ainda, mesmo depois de anos a fio refinando sua prática, partes de seu corpo ainda na obscuridade, que impediam que ele se desenvolvesse ainda mais e expandisse em graus mais elevados sua consciência de si.
Quando ao praticar procuramos observar com olhar interno atento, o olhar dos poros da pele abertos, e tentamos identificar com adjetivos as partes de nosso corpo, podemos romper esta barreira. Por exemplo, há joelhos excessivamente permissivos, o que resulta em hiperestensão. Há ombros intransigentes, o que resulta em rigidez nesta articulação, e geralmente um peito fechado, trapézios tensos, respiração curta e superficial. Há corpos pouco assertivos, em que a musculatura não se encontra aderida aos ossos e sim espalhada pra longe deles, frouxa. São corpos com pouca sustentação, onde os ossos não têm direção clara, estão soltos, talvez assim como os propósitos daquela mente não estão aderidos à essência da subjetividade daquela pessoa ou, ainda um pouco menos grave, alguns aspectos do comportamento diário não estão exatamente em concordância com seus propósitos mais profundos. Há cotovelos passivos, que não sabem resistir, ao mesmo tempo que não sabem contar com a colaboração de seus vizinhos bíceps e tríceps para, com forças reunidas, sustentar braços firmes, que ajudam a posicionar escápulas, pescoço e cérebro, o que resultaria numa mente mais focada. E o que é que se pode construir na vida sem foco?  
Poderíamos seguir por minutos a fio a encontrar íntimas relações entre corpo físico e atitude mental. E isso ocorre pelo simples fato de que CORPO É MENTE. Trata-se de um princípio da neuropsicologia chamado Monismo.
Assim, neste exercício de refinamento de conexão mente-corpo, partimos de perguntas como “Que pulsão habita meu corpo agora?”,  “Qual devir se encontra manifesto na postura de minha coluna vertebral?”, “Se minha cabeça tende sempre a inclinar-se adiante do resto de meu corpo, chegando antes dele, qual devir está aí agindo?”, “Quando tenho a musculatura das costas ao mesmo tempo tonificada e relaxada, consigo manter por muito tempo, de maneira contínua e com pouco esforço minha cabeça em linha com o resto da coluna vertebral, meu cérebro é melhor oxigenado e tenho um centro claro, qual pulsão aí tende a habitar? Que devires se manifestam com mais frequência?”
É claro que nada disso é simples, pois os aspectos de nossa subjetividade acendem-se e apagam-se de maneira complexa, misturando tintas, produzindo meios tons, memórias misturando-se com percepção do tempo presente, sombras semi-permeadas de luzes. Nada é definitivo, estamos o tempo todo em construção. Nossas experiências formam quem somos, disse John Locke[4].
Yoga é um exercício de empirismo. Tem como base esta crença, que ao longo dos séculos vem tornando-se científica graças e estudiosos de veia ao mesmo tempo experimental e acadêmica. Estes estudiosos, pensadores, professores de áreas do saber como a filosofia, a neurociência, a psicologia cognitiva, os estudos motores, bioenergéticos, entre outros, vêm produzindo e publicando subjetividades caras ao desenvolvimento humano. Figuras como os pré-socráticos sofistas Protágoras e Górgias, Spinoza, o próprio Locke, Focault, Deleuze, Guattari são essenciais. A atual psicologia comportamental, que dá ênfase às interações entre as emoções, pensamentos, comportamentos e estados fisiológicos, chega ao ponto de postular a não existência da mente e concebe o ser humano como um todo, e tem como base teórica a atuação dos psicólogos behavioristas Edward L. Thorndikel e John Watson.
B.F. Skinner fundou uma das filosofias que embasam a análise experimental do comportamento. Dizia que o organismo teria três tipos de comportamentos: o padrão fixo de ação; o comportamento respondente (100% inatos) e o operante (100% aprendidos). Segundo Skinner, o homem será influenciado por fatores filogenéticos, ontogenéticos e culturais, tendo como parâmetro teórico o selecionismo de Charles Darwin.
Ora, sabe-se na genética contemporânea que o padrão genético de um indivíduo não o determina, ou seja, os genes podem ou não se expressar. No que implica a expressão ou não destes genes? Todas as teorias citadas acima, bem como o Yoga, acreditam que as combinações entre nossas escolhas, ações, pensamentos e mapa genético é que constroem quem somos, empiricamente.

[3]Asana = postura corporal yóguica
[4] John Locke, filósofo e ideólogo inglês, considerado o principal representante do empirismo britânico.
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Mulher barriguda, que vai ter menina*


Gestantes, parturientes. Tenho algumas alunas que se encontram neste momento. Todas grávidas de meninas. Este post vai pra elas.
Mulheres, o Yoga começa agora. Sua maternidade começa no momento em que você decide. Sua filha ainda não nasceu, mas você está prestes a dar à luz. Você se preocupa, pois o ultrassom mostra o bebê ainda não completamente encaixado. Sua médica diz pra você não se preocupar, pois sempre há a possibilidade da cesárea. Você baixa os olhos, entende que sim, se for necessário, é claro, a prioridade é a saúde e a segurança de sua filha. Mas ainda tem expectativas sobre o parto natural, pois não há determinantes suficientes que afirmem a necessidade vital da cesárea. Quase se frustra, mas engole a seco e tenta seguir pensando positivo. Por um momento, sentindo-se impotente, procura em seus arquivos mentais algo que se possa fazer pra que este bebê encaixe. Algo que sua avó lhe disse, uma simpatia, um dito popular, artigo científico, alguma luz para que seja possível este parto natural. Sabe que será melhor pro bebê e pra você. Sabe que o corpo assim seguirá com naturalidade fisiológica, levando suas emoções e as de sua filha para um lugar de vitalidade, segurança e contentamento. Você está na quadragésima semana. E ainda há tempo.
Como o Yoga pode te ajudar? O que tenho visto nos últimos seis anos ministrando aulas para uma diversidade de perfis sócio-anatômico-culturais de gestantes é a seguinte amostragem: dentre as mulheres que praticam Yogasanas (posturas físicas e exercícios respiratórios do Yoga) apropriadamente conduzidos por um professor experiente durante a gestação, a maioria faz parto natural. 1) Porque na prática yóguica ela treina um estado de auto-observação, conectando-se de maneira refinada com o próprio corpo e tem mais chances de apropriação e boa “navegação” em meio às variáveis mente-corpóreas que se dão neste período da vida; 2) Porque ela é beneficiada pelos efeitos fisiológicos (que vão do equilíbrio hormonal e ganho de tônus, flexibilidade muscular, articular ao aprendizado de uma respiração eficaz) e psíquicos desta prática. O melhor é que você já venha praticando há algum tempo, desde antes da gestação, ou pelo menos desde o início dela. E se você tem uma professora que estuda a prática para gestantes, tem ouro nas mãos. Há uma série de Yogasanas, manobras corporais e respiratórias que promovem desde os primeiros dias de gestação até o desmame de seu filho um bem-estar inimaginável, que desmente falas populares como “ser mãe é padecer no paraíso”. Sim, algumas dores são inevitáveis. Por isso é importante que você aprenda a re-significá-las e administrá-las. Mas muitas outras dores você pode evitar, simplesmente com construção de consciência, ou seja, estrutura física e mental.
Podemos por exemplo refletir sobre o mito de que, se o bebê não está encaixado até o início do trabalho de parto, a indicação é a cesariana. O que muitas mães e até mesmo muitas médicas não sabem é que, sim, é possível você ajudar seu bebê a se encaixar na pelve de maneira adequada. Há inúmeros fatores – muitos desconhecidos – sobre os quais se especula a razão de o bebê encaixar ou não quando se aproxima a hora do parto. Independente destas causas, o corpo é seu. Você ainda tem controle sobre ele, e deve nutrir uma prática que refine sua conexão mente-corpo, de modo a manter sua percepção ativa e aguçada sempre que necessário. Sabemos que uma das diversas funções dos pais é direcionar seu filho, ensinar-lhe foco, estimulá-lo a caminhar. Esta atitude deve começar no período pré-parto. Você convida sua filha a nascer. Mostra a ela a direção, dá-lhe um estímulo, diz o quanto está esperando para lhe mostrar tantas coisas bonitas aqui fora. Ela vai sair de sua caverna para uma outra experiência, de grandes emoções. Que venha à vida! Na última semana de gestação, usando suas pernas e braços, com toda a gentileza, suavidade e carinho, você diminui lentamente o espaço de um lado do abdômen e abre mais espaço do outro lado. Para tanto você precisa saber onde estão cabeça, costas e pés, pois assim vai conduzir sua filha à direção correta. O ultrassom pode ajudar, mas como a vida é absolutamente dinâmica, do momento em que sai da sala do último exame até este em que aqui me lê, seu estado intra-uterino pode já ter mudado. Você tem que olhar para seu ventre como quem quer ver, sentir, apalpar, até ter certeza. Deve conduzir a cabeça para que encaixe em sua pelve. Se você não tem uma prática de yoga constante, ou não tem uma professora que saiba fazê-lo, procure uma. Muitos médicos não sabem que isto é possível. Todas as doulas devem saber. Mas não faça sozinha algo de que não tem conhecimento. Você deve trabalhar com segurança. Mente, respiração e mãos firmes, gestos certeiros e amorosos, que expressem confiança. Este é um momento de grande desafio também para sua filha, que não tem a mesma consciência que você ainda, mas já tem alguma. Ela sente o que está por vir, e com sua condução segura você a auxilia. Afinal, seu objetivo é convidá-la a participar de seu próprio nascimento, mostrar o que ela pode fazer. Você a estará ensinando maturidade, responsabilidade, e vai impulsioná-la à luz mais facilmente.
Na hora do parto, evite se deitar. É preciso trabalhar com a gravidade a seu favor. Cócoras, usando uma banqueta apropriada. Ou sentada na banheira. Você, de posse da consciência corporal, vai perceber qual a melhor posição. Precisa busca-la. Cada mulher tem a sua, nem sempre as escolhas são parecidas. A orientação de um profissional de sua escolha ajuda muito. Sempre recomendo a contratação de uma doula ou parteira em quem confie. Elas estudam, têm muita prática e conhecem manobras salvadoras que a medicina convencional não usa. A cesárea deve ser a última saída, quando de fato constata-se risco para bebê e mãe. Desconfie de médicos que apelam rapidamente a esta cirurgia. Procure se informar com antecedência. Seja ativa neste processo, aproprie-se de seu corpo, de sua gestação, parto e lactação. Não se entregue a nada cegamente, esteja sempre com a respiração suave, macia, profunda, a mente alerta, os pés firmes e espalhados no chão. Procure aterramento. A mãe é como a terra para seu filho, sem deixar de ser também água. Nutrição, apoio, refresco.
Quando esta filha (e você como mãe) nascer, parabenize-a, procure mantê-la em seu peito. Deixe-a ali, sentindo seu cheiro, sua presença. Dê-lhe forças e boas vindas. Abrace-a pra que se sinta segura desde já, quando tudo está começando pra ela.
Desejo-lhes uma boa hora!
Com carinho.
Namastê!

O título deste post é uma paródia à primeira estrofe da música “Mulher Barriguda”, do compositor Solano Trindade,  interpretada pela banda Secos e Molhados. 

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Manifesto por uma atitude yóguica na ciência e uma atitude científica no yoga

Colagem © Fabiana Rodrigues Barbosa, com recortes de fragmentos de imagens
do jornal A Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo. Março/2014.
Científico não é o mesmo que acadêmico. A academia é onde se investigam e partilham saberes sobre a arte de se fazer ciência. Sim, porque ciência também é arte, prática, experimentação, vivência. É fé. Todo cientista, todo pesquisador que se preze tem fé, porque sabe que não pode explicar tudo, e mesmo assim segue com suas investigações, na tentativa de refinar seu saber, colocando-o o tempo todo à prática, porque sabe da força e da importância do olhar atento a cada passo, do momento presente, sem desprezar o passado e considerando sim o futuro, afinal, estamos vivendo na matéria! O bom pesquisador mantém-se íntimo às suas verdades, inclusive para poder, se necessário, desconstruí-las e humildemente, a cada dia, abrir um olhar fresco, evitando vícios e pseudoverdades amalgamadas, construídas muitas vezes por ele mesmo. O bom pesquisador, como o yogue, está atento para recomeçar cada dia a partir do ponto mais alto em que chegou no dia anterior
Se há alguns cientistas que têm preconceitos contra artistas (e yogues), sabemos que há artistas (e yogues) preconceituosos contra cientistas. Que pena. Por que esta separação? Não requer o cientista de criatividade para investigar, testar, teorizar, quebrar paradigmas? Não é indispensável ao verdadeiro artista investigação, método e rigor como suporte para criar e produzir? O yogue é tudo isso.
CIÊNCIA (Dicionário Aurélio): s.f. Conjunto organizado de conhecimentos relativos a certas categorias de fatos ou fenômenos. […]
“Nosso pensamento, memória e atitudes funcionam em dois níveis, consciente e inconsciente, com a maior parte funcionando automaticamente, nos bastidores. Como um Jumbo, voamos a maior parte do tempo no piloto automático. Assim, será inteligente darmos ouvido (apenas) à nossa sabedoria interna, simplesmente confiar na nossa ‘força interior’? Ou deveríamos submeter (também) nossos impulsos intuitivos com mais frequência ao discernimento cético (científico)?” MYERS, D. G. (2012).
No pensamento científico, por exemplo, dá-se crédito a citações e/ou fontes de inspiração, seja escrita ou falada, pois sabe-se que representam o percurso de um pesquisador, um produtor de conhecimento, de subjetividades. Há respeito. E para situações em que não há respeito às citações, há leis que regulamentam os direitos dos autores e os protege contra o plágio. Isto porque o percurso de uma pesquisa se constrói com base em saberes que já estava antes no mundo. Toda pesquisa parte de outras pesquisas e demandas, ao mesmo tempo que contribui àquelas, acrescenta, as faz crescer, e é importante que esteja explícito na produção do pensamento-ação de onde ele veio, quais suas origens, de onde partiu verdadeiramente para aqui chegar.
O olhar científico é a prática de pensar criticamente, organizar o saber e submetê-lo à experimentação, sempre com objetivo de alcançar alguma verdade. Aqui verdade entendida como: o que parece correto, justo, adequado, ético. Mas a verdadeé subjetiva, já que cada indivíduo tem a sua. 
Então a abordagem do Yoga como ciência significa que, muito diferente de uma ciência pura, que independeria de qualquer preocupação de aplicação prática, estamos a falar de uma ciência composta. União de todos os Yamas e Niyamas, mistura de lógica, psicologia, geometria, filosofia e fé (que não é científica, mas promove a entrega). Isso tudo interagindo com a complexa subjetividade de cada um de seus praticantes, localizados no mundo em que vivem (tempo e espaço), atravessados pelos valores de seu contexto social. O que faz do Yoga uma ciência de beleza indescritível.
“O intelecto nu é um instrumento extraordinariamente impreciso.” L’ENGLE, M. (1973).
Estudar como nossa prática impacta em nossa psique e vida social (relacional) implica em investigações que se dão no campo da teoria e da prática. A ciência contemporânea está muito interessante, há métodos abertos, qualitativos, que não deixam de ser rigorosos. Levar um dia o Yoga pra ser parte da formação universitária dos profissionais de saúde, e dali para o CAPS e o SUS, será de muita utilidade humana. Ampliar as aplicações do Yoga na comunidade. Um sonho? Quem sabe? Ajudar mulheres,  homens e seus filhos não é algo da ordem dos caprichos. É promover saúde física e mental, bem-estar social, é prevenir patologias pelo cultivo e partilha de ferramentas auto-cuidado. É sim algo da ordem da saúde pública.
Clareza e discernimento têm dissipado muitas névoas. Sigo mais fundo. Seis a sete horas diárias de estudos e práticas, além das aulas e cursos que ministro em residências, escolas, instituições de ensino de todo o estado de São Paulo. Encontrei um grupo de estudiosos com anseios parecidos aos meus, e nossos estudos conjuntos são frutíferos. Sigo praticando e recebendo aulas semanalmente, e com humildade submetendo minha prática aos olhos de um professor que está hoje muito próximo a BKS Iyengar. Se tudo der certo, reverei Guruji ano que vem, e pretendo seguir revendo, recebendo dele ensinamentos o mais diretamente possível. O processo de certificação, em verdade, trata-se sim de mais uma forma de ter acesso de maneira muito próxima aos ensinamentos de nosso mestre. Seu rigor, inconveniente para alguns e apenas parte do processo de refinamento para outros, reflete aspectos de nossa sociedade e seus modos organizacionais de categorias profissionais. Os Assessments são uma tentativa da nossa associação de classe profissional, a ABIY (Associação Brasileira de Iyengar Yoga), de regulamentar nossa profissão, torna-la reconhecida e respaldada. Não há Instituição no Brasil que contrate um professor de Iyengar por meio do aparelho social de direitos trabalhistas como férias remuneradas, aposentadoria, etc. Todos somos autônomos, soltos em mar aberto. Mas temos uma Associação que nos fornece respaldo. Quem não está satisfeito com o formato dos Assessments pode: 1) tentar mudar (já que a ABIY está sempre em construção); 2) se submeter de coração aberto ou 3) terá que desistir de se autodenominar professor certificado em Iyengar Yoga. Não sou eu quem diz isso, e sim o regulamento da ABIY. Exatamente como na formação para qualquer outra profissão que quer ser respeitada, reconhecida e ter espaço em nosso mundo, as pessoas passam por avaliações, exames, testes de conhecimento, feitos pelas entidades reconhecidas como tal. Não é fácil mesmo. Nem sempre é justo, porque os seres humanos que ali as estão construindo as avaliações não são perfeitos, assim como eu e você. É uma longa jornada. Mas nada disso exclui uma vivência do TODO no Yoga. Ao contrário, a vivência do TODO é que possibilita a construção de algo consistente, mas que tem que ser regulamentado para ser reconhecido como profissão. Estão surgindo pessoas na ABIY de bom senso, bons julgamentos de valores. Tenho esperanças, e já que é com este método que quero trabalhar, tentarei fazer parte e ajudar, como puder, na construção de uma associação de classe digna pra nós.
“Dois fenômenos – o viés retrospectivo (síndrome do ‘eu já sabia!’) e os julgamentos superconfiantes (confiança excessiva, que nunca exercita um olhar autocrítico) – ilustram porque não podemos unicamente confiar na intuição e no senso comum.” Psicologia. MYERS, D. G. (2012).
“O princípio número 1 é que você não deve enganar a si mesmo – e você é a pessoa mais fácil de ser enganada.” FEYNMAN, R. (1997)
Pergunto-lhe: o professor precisa ou não fazer uso da ciência pra ensinar? A meu ver, o Yoga não só é passível de, como carece de compreensão e investigação científicas, enquanto estiver sendo ensinado. Na instância da prática pessoal também, só que de outra maneira, pois a ausência de olhar científico aqui incorrerá em consequências apenas para o praticante. Enquanto isso, o caso do professor envolve maiores responsabilidades. Então é claro que a utilização do viés científico na prática e no ensino do Yoga é indispensável. O próprio BKS Iyengar passa e passou quantidade incontável de horas tanto na sala de prática quanto na biblioteca. Sem o olhar científico a fé  e a entrega se tornam cegas, diz ele. Eu concordo.
A ciência do Yoga (que, espero que já esteja claro, inclui a prática E a vivência do TODO) promove estudos que têm contribuído muito com praticantes interessados no aprofundamento, que buscam refinar detalhes, investigar pormenores. Recebo feedbacks com frequência de pessoas que nem conheço e que adquiriram o Guia de Yoga para Mulheres e tiveram seus ciclos menstruais mensais reequilibrados, suas emoções pacificadas. Graças a um trabalho de organização e sistematização do conhecimento: ciência! 
Minha fala neste texto se volta aos que querem se aprofundar e me acompanhar neste mergulho nas entranhas todas do Yoga. Se você tiver interesse em contribuições neste sentido, tenho certeza que poderei dá-las. As interfaces que tenho encontrado entre o Yoga, a neuropsicologia, a psicologia social (ou relacional), a filosofia, entre outros, têm sido fantásticas e tem sido um enorme prazer pra mim compartilhá-las.
Estou em Tadasana, sthira sukham, com o olhar interno aberto, relaxado e focado, mas meus horizontes estão se alargando. Sinto-me grata e gratificada pelo universo, que mais uma vez me prova que estou no caminho certo.   
 
Referenciais teóricos
A Wind in the door. L’ENGLE, M. New York: FSG, 1973.
Light on Yoga. IYENGAR, B.K.S. New York: Schocken Books, 1979.
Psicologia. MYERS, D. G. Rio de Janeiro: LTC, 2012.
Surely you’re joking, Mr. Feynman. FEYNMAN, R. New York: Norton, 1997.

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Para mulheres que vivem como rios

E chega ao final 2013. No final do ano passado fomos avisados por astrólogos, sacerdotes e sacerdotisas que não seria um ano fácil. Muito trabalho, esforço, confiança na firmeza, na força e na retidão das atitudes. Mas que a palavra difícil não deveria ser usada, pois difícil é algo que não conta com suficiente capacidade de solução. O que provavelmente não seria o caso se nos esforçássemos e seguíssemos plantando o que deveríamos já vir plantando desde cedo, ou iniciássemos o quanto antes o que de importante não tivéssemos ainda iniciado e nos esperava em pendência.

A orientação para 2014 é não baixar as guardas, mas há agora uma indicação pelos mesmos estudiosos do ano anterior de que todo o trabalho de plantio receberá expansão, assim como tudo o que não se resolveu, não se clareou ou para o que não se buscou clareza, esta escuridão também pode se expandir, pois será um ano de expansão de tudo o que está em curso. Portanto, palavras de ordem são cuidado, foco, organização, definição, clareza!

Termino este ano como professora honrada por minhas alunas e companheiras de jornada. Mulheres que vivem em busca de contato profundo consigo, com seu leito de vida, com suas margens, sua cobertura, seu conteúdo, seus habitantes, seu respaldo, seus acidentes de percurso e suas contas preciosas.

Estas mulheres chegaram e continuam chegando até mim porque elas E eu estamos em busca de uma companhia na orientação para nosso percurso, e após meses e anos de encontros semanais continuam comigo, e assim me honram a alma. É de tamanha responsabilidade este ofício que me foi confiado, para o qual sigo buscando me refinar e estar à altura do que merece a Grande Jornada. Boa parte do que há disponível para nós nem mesmo sabemos, sinto em meu coração que temos o infinito para ser partilhado dentro de nosso universo feminino.

Como praticante o ano nunca termina e nunca começa, pois o insaciável desejo de ir mais fundo está no dia-a-dia, e se repete a sensação de que ainda falta muito, seguida de saciedade após um Savasana que coroou uma prática. Mas confesso que depois de minha primeira visita àÍndia, esta busca adquire contornos mais macios, tolerantes, humildes, com mais entrega e auto-acolhimento.

E este TUDO ainda não descoberto por nós estáà nossa espera. À espreita, aguardando nosso amoroso e firme olhar. Olhar de fé que não precisa de desvios. Olhar transparente, penetrante, confiante. Olhar de mãe, de irmã, de amiga, de semelhante.

Para estas mulheres, que correm como rios porque descobriram que são terra, água, fogo, ar e éter e sabem que não há vida sem esta certeza, dedico toda a minha gratidão e amor, meu trabalho, minha imensa vontade de que cresçamos, floresçamos e frutifiquemos a partir do âmago da força da natureza que cada uma de nós é.
E que assim seja.
Um encerramento e uma renovação de ciclo abençoada para todas e cada uma.
Om, Paz, Paz, Paz.
Paz na Terra. Viva a Grande Mãe.

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