Asanas, Benefícios do yoga, Corpo & mente, Pranayama, Yoga no dia-a-dia

Depois daquele corpo que fiz…

 

Depois daquele corpo que fiz…
(ou quando a postura corporal esculpe a mente)
Virabhadrasana1 é o nome de um Yoga Asana (palavra sânscrita que pode ser traduzida grosseiramente[1]como postura corporal yóguica). Virabhadraé um herói mitológico, originário do impacto de um fio de cabelo atirado ao chão após ter sido retirado dos cabelos emaranhados do grande Siva, deus da construção e da destruição, então enraivecido por ter perdido sua esposa que se suicidou por ter sido humilhada. Do encontro do cabelo com o chão emergiu o poderoso Virabhadra, que vingou-lhe em batalha vencida a morte da esposa. Virabhadrasanaé portanto um Asana dedicado ao poderoso guerreiro criado por Siva a partir de seu fio de cabelo emaranhado.
Costumamos dizer no meio yóguico que realizar este Asana com dedicação, evoca e convoca em nós uma atitude de poder. Sua execução exige força, precisão (com ajustes corretos, que não só impedem a coluna vertebral de colapsar ou ser comprimida, mas promover expansão vertebral, otimizando bastante a respiração), concentração em cada uma das partes do corpo e ao mesmo tempo no conjunto das ações. Para executá-lo é preciso estar completamente imerso nesta tarefa. Durante aqueles segundos, nada mais existe no mundo, e o praticante é todo força, coragem, atitude positiva, vontade de vencer seus próprios obstáculos. Acontece então uma verdadeira batalha interna, onde emergem fantasias e fantasmagorias. E é quando conseguimos superá-las que de fato entramos o Asana. Nosso professor Faeq Biria diz que, dos Asanasde pé, este é o mais Pranayamico, ou seja, que mais ativa o Pranayama, que pode, também grosseiramente, ser traduzido como respiração. Aprofundando-se o significado de Pranayama, chega-se a uma das interessantes definições de BKS Iyengar:
Pranayama portanto tem um especial significado e importância em Yoga. Prana significa respiração, o ar e a vida por si só. Mas em Yoga, prana (em todos os seus cinco aspectos no Homem de Prana, Apana, Vyana, Udana and Samana[2]) é a própria essência do princípio de energização do mundo animado e inanimado. Permeia todo o universo. E Pranayama significa o controle total deste princípio de energização em seu próprio ser por meio de uma certa disciplina. Esta disciplina almeja não simplesmente uma boa saúde, um equilíbrio na energia física e vital, mas também a purificação de todo o sistema nervoso, objetivando maior capacidade de responder ao desejo do Yogi de controlar as urgências dos sentidos, e em fazer os poderes mentais mais sutis e sensíveis para a chamada do impulso evolutivo, a natureza […] mais elevada no homem.”[3]   
Uma prática bem conduzida deste Asana de fato esculpe um estado mental vigoroso. Mas ele não vem sozinho. Sempre recomenda-se que a prática contenha Asanas de abertura (preparação para os vigorosos como Virabhadrasana) e de fechamento (onde aquietamos o corpo). No relaxamento final promovemos “a calma que o cérebro precisa para realizar a absorção da experiência e transformá-la em memória de longo prazo”[4].
Compartilho uma experiência pessoal em que tive de me munir de coragem e fiz bom uso de uma prática de Virabhadrasana 1 combinada a outras posturas de pé para ativar esta força interna. Há muitos anos decidi fazer um breve retiro sozinha, isolada da cidade, numa praia minúscula do litoral paulista onde só se tinha acesso via trilha pedestre ou barcos de pescadores locais. A época do ano não era de temporada, ou seja, na praia só estávamos eu numa cabana alugada de pescadores, e a comunidade local, composta por uma pequena igreja e uma média de 20 casas de famílias caiçaras, das quais eu havia conhecido apenas uma única mulher, seu marido e seu pequeno filho, que me alugaram a pequena cabana de um só cômodo. Não tínhamos luz elétrica na comunidade, e uma vez o banho gelado antes do pôr-do-sol garantido, quando caiu a primeira noite foi que me dei conta de que, dada a localização da cabana alugada, se algo a mim ocorresse no meio da noite, demoraria muito para que alguém soubesse. Senti medo, que sorrateiramente se transformou em pavor. Todos os ruídos da mata cresceram. Pensei em procurar ajuda, mas como me deslocar em meio àquela escuridão apenas munida de minha lanterna? As chances de me perder entre os caminhos da vila eram grandes. E também, ajuda para quê, especificamente? Mudar de cabana àquela altura da noite seria inviável. Afinal, nada havia acontecido. Me recolhi, fechei porta e janelas. Passado algum tempo, alguém bate na porta. Assusto. Respondo de dentro: pois não? Ouço a voz de um homem perguntando por alguém que não era eu. Respondo de novo que a pessoa não estava ali e que em nada eu lhe poderia ajudar. Ele insiste na pergunta e soma-se à voz dele a de um outro homem. Quase me apavoro, mas engrosso ainda mais a voz com toda a braveza que posso reunir e firmemente ordeno que se retirem, pois ali nada havia que lhes pudesse interessar. Silenciam. Tenho a sensação de que se afastam. Acendo mais velas e um incenso, pedindo proteção espiritual e física. As sombras das velas tornam-se imensas e assustadoras. Qualquer pequeno ruído é um sobressalto. Sinto-me acuada. A cabana fica aos pés de uma pequena encosta, que projeta uma sombra imaginária em toda a minha morada provisória. Sem sinal de celular. Nenhum meio de comunicação. Tento me conectar à força do mar, que não posso ouvir, pois estou a pelo menos 2km dele, mas posso sentir, com alguma concentração. Penso e repenso no que poderia fazer se acaso eles voltassem. Organizo um esquema mental. E começo uma prática de posturas de pé. Minha permanência em Virabhadrasananunca foi tão longa e tão potente, tamanha a minha sede daquela força. Em meu corpo circula puro fogo, sangue quente. Minhas articulações rapidamente se soltam. Meus músculos fortes como nunca. Minha mente livre, absolutamente mergulhada, fundida naquilo. Era isso ou pirar de medo e impotência. Parecendo a única saída no momento, me entrego por completo. De todos os recursos, naquela noite, esta prática foi a que mais funcionou. Foi algo tão visceral, que nem tomei banho depois. Deitei na cama para o relaxamento final, com esperança de pegar no sono e ganhar noite adentro algum descanso merecido e gratificado por aquele começo desafiador de meu retiro ter se resolvido bem. No dia seguinte, a primeira coisa que fiz depois do precioso banho de mar foi reportar o ocorrido à família que me alugou a casa. Tradicional na simplória comunidade, mesmo que em sua vida de poucos recursos, a família tinha respeito e autoridade social entre os seus. A esposa me conta que já ocorreu outras vezes e que, de fato, há homens que procuram por turistas que queiram pagá-los em troca de sexo. Quase desisto de meu retiro quando ouço a notícia, mas ela me garantiu que havia um código que todos respeitavam: sendo a comunidade avisada que não era o caso, e que meu interesse ali era um retiro absoluto e que não queria ser incomodada, assim seria. Duvido por alguns minutos de aquela mulher simplesmente estar interessada em garantir a renda do aluguel. Examino-a com mais cuidado. Ele me garante, fixando o olhar. Sinto alguma confiança nela, que chama o marido e o faz ir até uma das rodinhas de caiçaras e lançar o primeiro aviso, pedindo que se espalhe. Não sei se acho bom ou se fico mais preocupada ainda. Ela me garante de novo, pede desculpas pelo transtorno, o marido idem. Ficam constrangidos. Vivendo e aprendendo. Quando é que eu imaginaria algo do tipo há tanto tempo atrás? O fato é que, uma vez o código anunciado, tive total privacidade em meu retiro de cinco dias de silêncio. Segui todos os dias praticando na cabana, de modo que minha energia pessoal se tornou firme. Nas noites que seguiram, manifestaram-se minhas questões internas mais profundas, que emergem quando se está sozinho em situação de retiro, sem falar com ninguém. Pra lidar com elas, lancei mão de meditações, reflexões e da prática, fogo que queima.

É claro que tive sorte de estar numa comunidade de código ético (relativamente) íntegro. Posto isto, ainda assim ter passado por uma situação limite como esta com o apoio daquela poderosa prática enraizou em minha memória corporal e emocional seus efeitos. Principalmente de Virabhadrasana 1. Sempre que preciso deste tipo de energia vital circulando, a primeira memória instantaneamente ativada é a desta experiência. Inesquecível, de força didática impressionante. 
Mas podemos assumir que meu depoimento é suspeito, já que vem do interesse de ratificar todo o texto acima. Por isso abro um espaço aqui para depoimentos sobre efeitos psíquicos objetivos de práticas yóguicas. Partilhas são benvindas e úteis, como pequenas flores na beira da estrada, que ajudam a compor os sentidos da jornada do yoga.
Namastê!

REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO

[1] Grosseiramente, pois Asana também significa Assento. Da mente no corpo. Da alma no corpo. Da alma na mente. Do corpo na alma, e assim sucessiva e reciprocamente. Asana tem sentidos abrangentes, como toda palavra sânscrita, que é uma língua extremamente filosófica. Pra começar, a cultura sânscrita acredita que o som de cada letra vibra em nossos centros energéticos, pontos por onde se cruzam os canais sutis que conduzem a energia vital, que flui em nosso corpo. Estes pontos, chamados também de chacras, onde os canais de energia vital (ou Prana) se cruzam, tornam-se poderosos vórtices, centros de energia, com qualidades específicas, advindas da maneira como os canais ali se encontram e do posicionamento na região do corpo, cada uma com suas características e funções também específicas. Portanto, se cada letra do alfabeto sânscrito vibra em determinados centros energéticos, ativando-os, alterando seus estados, estes sons teriam o poder de mudar o estado de características de nossa energia vital. E até mesmo dela toda. Imaginem enfim o que pode ocorrer com palavras inteiras. Este é o poder do canto de mantras, por exemplo, segundo a cultura do Yoga.
[2] Apana, Vyana, Udana, Samana: diferentes modos do fluxo de Prana no corpo.
[3] IYENGAR, BKS. Light on Pranayama – the Yogic Art of Breathing. New York: Crossroad, 2004. P. XVii.
[4] ROBIN, MEL. A physiological handbook for teachers of yogasana. Tucson: Fenestra Books, 2002. P. 42.
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Mulher barriguda, que vai ter menina*


Gestantes, parturientes. Tenho algumas alunas que se encontram neste momento. Todas grávidas de meninas. Este post vai pra elas.
Mulheres, o Yoga começa agora. Sua maternidade começa no momento em que você decide. Sua filha ainda não nasceu, mas você está prestes a dar à luz. Você se preocupa, pois o ultrassom mostra o bebê ainda não completamente encaixado. Sua médica diz pra você não se preocupar, pois sempre há a possibilidade da cesárea. Você baixa os olhos, entende que sim, se for necessário, é claro, a prioridade é a saúde e a segurança de sua filha. Mas ainda tem expectativas sobre o parto natural, pois não há determinantes suficientes que afirmem a necessidade vital da cesárea. Quase se frustra, mas engole a seco e tenta seguir pensando positivo. Por um momento, sentindo-se impotente, procura em seus arquivos mentais algo que se possa fazer pra que este bebê encaixe. Algo que sua avó lhe disse, uma simpatia, um dito popular, artigo científico, alguma luz para que seja possível este parto natural. Sabe que será melhor pro bebê e pra você. Sabe que o corpo assim seguirá com naturalidade fisiológica, levando suas emoções e as de sua filha para um lugar de vitalidade, segurança e contentamento. Você está na quadragésima semana. E ainda há tempo.
Como o Yoga pode te ajudar? O que tenho visto nos últimos seis anos ministrando aulas para uma diversidade de perfis sócio-anatômico-culturais de gestantes é a seguinte amostragem: dentre as mulheres que praticam Yogasanas (posturas físicas e exercícios respiratórios do Yoga) apropriadamente conduzidos por um professor experiente durante a gestação, a maioria faz parto natural. 1) Porque na prática yóguica ela treina um estado de auto-observação, conectando-se de maneira refinada com o próprio corpo e tem mais chances de apropriação e boa “navegação” em meio às variáveis mente-corpóreas que se dão neste período da vida; 2) Porque ela é beneficiada pelos efeitos fisiológicos (que vão do equilíbrio hormonal e ganho de tônus, flexibilidade muscular, articular ao aprendizado de uma respiração eficaz) e psíquicos desta prática. O melhor é que você já venha praticando há algum tempo, desde antes da gestação, ou pelo menos desde o início dela. E se você tem uma professora que estuda a prática para gestantes, tem ouro nas mãos. Há uma série de Yogasanas, manobras corporais e respiratórias que promovem desde os primeiros dias de gestação até o desmame de seu filho um bem-estar inimaginável, que desmente falas populares como “ser mãe é padecer no paraíso”. Sim, algumas dores são inevitáveis. Por isso é importante que você aprenda a re-significá-las e administrá-las. Mas muitas outras dores você pode evitar, simplesmente com construção de consciência, ou seja, estrutura física e mental.
Podemos por exemplo refletir sobre o mito de que, se o bebê não está encaixado até o início do trabalho de parto, a indicação é a cesariana. O que muitas mães e até mesmo muitas médicas não sabem é que, sim, é possível você ajudar seu bebê a se encaixar na pelve de maneira adequada. Há inúmeros fatores – muitos desconhecidos – sobre os quais se especula a razão de o bebê encaixar ou não quando se aproxima a hora do parto. Independente destas causas, o corpo é seu. Você ainda tem controle sobre ele, e deve nutrir uma prática que refine sua conexão mente-corpo, de modo a manter sua percepção ativa e aguçada sempre que necessário. Sabemos que uma das diversas funções dos pais é direcionar seu filho, ensinar-lhe foco, estimulá-lo a caminhar. Esta atitude deve começar no período pré-parto. Você convida sua filha a nascer. Mostra a ela a direção, dá-lhe um estímulo, diz o quanto está esperando para lhe mostrar tantas coisas bonitas aqui fora. Ela vai sair de sua caverna para uma outra experiência, de grandes emoções. Que venha à vida! Na última semana de gestação, usando suas pernas e braços, com toda a gentileza, suavidade e carinho, você diminui lentamente o espaço de um lado do abdômen e abre mais espaço do outro lado. Para tanto você precisa saber onde estão cabeça, costas e pés, pois assim vai conduzir sua filha à direção correta. O ultrassom pode ajudar, mas como a vida é absolutamente dinâmica, do momento em que sai da sala do último exame até este em que aqui me lê, seu estado intra-uterino pode já ter mudado. Você tem que olhar para seu ventre como quem quer ver, sentir, apalpar, até ter certeza. Deve conduzir a cabeça para que encaixe em sua pelve. Se você não tem uma prática de yoga constante, ou não tem uma professora que saiba fazê-lo, procure uma. Muitos médicos não sabem que isto é possível. Todas as doulas devem saber. Mas não faça sozinha algo de que não tem conhecimento. Você deve trabalhar com segurança. Mente, respiração e mãos firmes, gestos certeiros e amorosos, que expressem confiança. Este é um momento de grande desafio também para sua filha, que não tem a mesma consciência que você ainda, mas já tem alguma. Ela sente o que está por vir, e com sua condução segura você a auxilia. Afinal, seu objetivo é convidá-la a participar de seu próprio nascimento, mostrar o que ela pode fazer. Você a estará ensinando maturidade, responsabilidade, e vai impulsioná-la à luz mais facilmente.
Na hora do parto, evite se deitar. É preciso trabalhar com a gravidade a seu favor. Cócoras, usando uma banqueta apropriada. Ou sentada na banheira. Você, de posse da consciência corporal, vai perceber qual a melhor posição. Precisa busca-la. Cada mulher tem a sua, nem sempre as escolhas são parecidas. A orientação de um profissional de sua escolha ajuda muito. Sempre recomendo a contratação de uma doula ou parteira em quem confie. Elas estudam, têm muita prática e conhecem manobras salvadoras que a medicina convencional não usa. A cesárea deve ser a última saída, quando de fato constata-se risco para bebê e mãe. Desconfie de médicos que apelam rapidamente a esta cirurgia. Procure se informar com antecedência. Seja ativa neste processo, aproprie-se de seu corpo, de sua gestação, parto e lactação. Não se entregue a nada cegamente, esteja sempre com a respiração suave, macia, profunda, a mente alerta, os pés firmes e espalhados no chão. Procure aterramento. A mãe é como a terra para seu filho, sem deixar de ser também água. Nutrição, apoio, refresco.
Quando esta filha (e você como mãe) nascer, parabenize-a, procure mantê-la em seu peito. Deixe-a ali, sentindo seu cheiro, sua presença. Dê-lhe forças e boas vindas. Abrace-a pra que se sinta segura desde já, quando tudo está começando pra ela.
Desejo-lhes uma boa hora!
Com carinho.
Namastê!

O título deste post é uma paródia à primeira estrofe da música “Mulher Barriguda”, do compositor Solano Trindade,  interpretada pela banda Secos e Molhados. 

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Manifesto por uma atitude yóguica na ciência e uma atitude científica no yoga

Colagem © Fabiana Rodrigues Barbosa, com recortes de fragmentos de imagens
do jornal A Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo. Março/2014.
Científico não é o mesmo que acadêmico. A academia é onde se investigam e partilham saberes sobre a arte de se fazer ciência. Sim, porque ciência também é arte, prática, experimentação, vivência. É fé. Todo cientista, todo pesquisador que se preze tem fé, porque sabe que não pode explicar tudo, e mesmo assim segue com suas investigações, na tentativa de refinar seu saber, colocando-o o tempo todo à prática, porque sabe da força e da importância do olhar atento a cada passo, do momento presente, sem desprezar o passado e considerando sim o futuro, afinal, estamos vivendo na matéria! O bom pesquisador mantém-se íntimo às suas verdades, inclusive para poder, se necessário, desconstruí-las e humildemente, a cada dia, abrir um olhar fresco, evitando vícios e pseudoverdades amalgamadas, construídas muitas vezes por ele mesmo. O bom pesquisador, como o yogue, está atento para recomeçar cada dia a partir do ponto mais alto em que chegou no dia anterior
Se há alguns cientistas que têm preconceitos contra artistas (e yogues), sabemos que há artistas (e yogues) preconceituosos contra cientistas. Que pena. Por que esta separação? Não requer o cientista de criatividade para investigar, testar, teorizar, quebrar paradigmas? Não é indispensável ao verdadeiro artista investigação, método e rigor como suporte para criar e produzir? O yogue é tudo isso.
CIÊNCIA (Dicionário Aurélio): s.f. Conjunto organizado de conhecimentos relativos a certas categorias de fatos ou fenômenos. […]
“Nosso pensamento, memória e atitudes funcionam em dois níveis, consciente e inconsciente, com a maior parte funcionando automaticamente, nos bastidores. Como um Jumbo, voamos a maior parte do tempo no piloto automático. Assim, será inteligente darmos ouvido (apenas) à nossa sabedoria interna, simplesmente confiar na nossa ‘força interior’? Ou deveríamos submeter (também) nossos impulsos intuitivos com mais frequência ao discernimento cético (científico)?” MYERS, D. G. (2012).
No pensamento científico, por exemplo, dá-se crédito a citações e/ou fontes de inspiração, seja escrita ou falada, pois sabe-se que representam o percurso de um pesquisador, um produtor de conhecimento, de subjetividades. Há respeito. E para situações em que não há respeito às citações, há leis que regulamentam os direitos dos autores e os protege contra o plágio. Isto porque o percurso de uma pesquisa se constrói com base em saberes que já estava antes no mundo. Toda pesquisa parte de outras pesquisas e demandas, ao mesmo tempo que contribui àquelas, acrescenta, as faz crescer, e é importante que esteja explícito na produção do pensamento-ação de onde ele veio, quais suas origens, de onde partiu verdadeiramente para aqui chegar.
O olhar científico é a prática de pensar criticamente, organizar o saber e submetê-lo à experimentação, sempre com objetivo de alcançar alguma verdade. Aqui verdade entendida como: o que parece correto, justo, adequado, ético. Mas a verdadeé subjetiva, já que cada indivíduo tem a sua. 
Então a abordagem do Yoga como ciência significa que, muito diferente de uma ciência pura, que independeria de qualquer preocupação de aplicação prática, estamos a falar de uma ciência composta. União de todos os Yamas e Niyamas, mistura de lógica, psicologia, geometria, filosofia e fé (que não é científica, mas promove a entrega). Isso tudo interagindo com a complexa subjetividade de cada um de seus praticantes, localizados no mundo em que vivem (tempo e espaço), atravessados pelos valores de seu contexto social. O que faz do Yoga uma ciência de beleza indescritível.
“O intelecto nu é um instrumento extraordinariamente impreciso.” L’ENGLE, M. (1973).
Estudar como nossa prática impacta em nossa psique e vida social (relacional) implica em investigações que se dão no campo da teoria e da prática. A ciência contemporânea está muito interessante, há métodos abertos, qualitativos, que não deixam de ser rigorosos. Levar um dia o Yoga pra ser parte da formação universitária dos profissionais de saúde, e dali para o CAPS e o SUS, será de muita utilidade humana. Ampliar as aplicações do Yoga na comunidade. Um sonho? Quem sabe? Ajudar mulheres,  homens e seus filhos não é algo da ordem dos caprichos. É promover saúde física e mental, bem-estar social, é prevenir patologias pelo cultivo e partilha de ferramentas auto-cuidado. É sim algo da ordem da saúde pública.
Clareza e discernimento têm dissipado muitas névoas. Sigo mais fundo. Seis a sete horas diárias de estudos e práticas, além das aulas e cursos que ministro em residências, escolas, instituições de ensino de todo o estado de São Paulo. Encontrei um grupo de estudiosos com anseios parecidos aos meus, e nossos estudos conjuntos são frutíferos. Sigo praticando e recebendo aulas semanalmente, e com humildade submetendo minha prática aos olhos de um professor que está hoje muito próximo a BKS Iyengar. Se tudo der certo, reverei Guruji ano que vem, e pretendo seguir revendo, recebendo dele ensinamentos o mais diretamente possível. O processo de certificação, em verdade, trata-se sim de mais uma forma de ter acesso de maneira muito próxima aos ensinamentos de nosso mestre. Seu rigor, inconveniente para alguns e apenas parte do processo de refinamento para outros, reflete aspectos de nossa sociedade e seus modos organizacionais de categorias profissionais. Os Assessments são uma tentativa da nossa associação de classe profissional, a ABIY (Associação Brasileira de Iyengar Yoga), de regulamentar nossa profissão, torna-la reconhecida e respaldada. Não há Instituição no Brasil que contrate um professor de Iyengar por meio do aparelho social de direitos trabalhistas como férias remuneradas, aposentadoria, etc. Todos somos autônomos, soltos em mar aberto. Mas temos uma Associação que nos fornece respaldo. Quem não está satisfeito com o formato dos Assessments pode: 1) tentar mudar (já que a ABIY está sempre em construção); 2) se submeter de coração aberto ou 3) terá que desistir de se autodenominar professor certificado em Iyengar Yoga. Não sou eu quem diz isso, e sim o regulamento da ABIY. Exatamente como na formação para qualquer outra profissão que quer ser respeitada, reconhecida e ter espaço em nosso mundo, as pessoas passam por avaliações, exames, testes de conhecimento, feitos pelas entidades reconhecidas como tal. Não é fácil mesmo. Nem sempre é justo, porque os seres humanos que ali as estão construindo as avaliações não são perfeitos, assim como eu e você. É uma longa jornada. Mas nada disso exclui uma vivência do TODO no Yoga. Ao contrário, a vivência do TODO é que possibilita a construção de algo consistente, mas que tem que ser regulamentado para ser reconhecido como profissão. Estão surgindo pessoas na ABIY de bom senso, bons julgamentos de valores. Tenho esperanças, e já que é com este método que quero trabalhar, tentarei fazer parte e ajudar, como puder, na construção de uma associação de classe digna pra nós.
“Dois fenômenos – o viés retrospectivo (síndrome do ‘eu já sabia!’) e os julgamentos superconfiantes (confiança excessiva, que nunca exercita um olhar autocrítico) – ilustram porque não podemos unicamente confiar na intuição e no senso comum.” Psicologia. MYERS, D. G. (2012).
“O princípio número 1 é que você não deve enganar a si mesmo – e você é a pessoa mais fácil de ser enganada.” FEYNMAN, R. (1997)
Pergunto-lhe: o professor precisa ou não fazer uso da ciência pra ensinar? A meu ver, o Yoga não só é passível de, como carece de compreensão e investigação científicas, enquanto estiver sendo ensinado. Na instância da prática pessoal também, só que de outra maneira, pois a ausência de olhar científico aqui incorrerá em consequências apenas para o praticante. Enquanto isso, o caso do professor envolve maiores responsabilidades. Então é claro que a utilização do viés científico na prática e no ensino do Yoga é indispensável. O próprio BKS Iyengar passa e passou quantidade incontável de horas tanto na sala de prática quanto na biblioteca. Sem o olhar científico a fé  e a entrega se tornam cegas, diz ele. Eu concordo.
A ciência do Yoga (que, espero que já esteja claro, inclui a prática E a vivência do TODO) promove estudos que têm contribuído muito com praticantes interessados no aprofundamento, que buscam refinar detalhes, investigar pormenores. Recebo feedbacks com frequência de pessoas que nem conheço e que adquiriram o Guia de Yoga para Mulheres e tiveram seus ciclos menstruais mensais reequilibrados, suas emoções pacificadas. Graças a um trabalho de organização e sistematização do conhecimento: ciência! 
Minha fala neste texto se volta aos que querem se aprofundar e me acompanhar neste mergulho nas entranhas todas do Yoga. Se você tiver interesse em contribuições neste sentido, tenho certeza que poderei dá-las. As interfaces que tenho encontrado entre o Yoga, a neuropsicologia, a psicologia social (ou relacional), a filosofia, entre outros, têm sido fantásticas e tem sido um enorme prazer pra mim compartilhá-las.
Estou em Tadasana, sthira sukham, com o olhar interno aberto, relaxado e focado, mas meus horizontes estão se alargando. Sinto-me grata e gratificada pelo universo, que mais uma vez me prova que estou no caminho certo.   
 
Referenciais teóricos
A Wind in the door. L’ENGLE, M. New York: FSG, 1973.
Light on Yoga. IYENGAR, B.K.S. New York: Schocken Books, 1979.
Psicologia. MYERS, D. G. Rio de Janeiro: LTC, 2012.
Surely you’re joking, Mr. Feynman. FEYNMAN, R. New York: Norton, 1997.

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A pele e a Alma

“Quando uma pessoa conecta a alma à pele e a pele à alma, quando existe a verdadeira comunhão entre as células do corpo e as da alma, temos a prática holística ou integrada, porque a totalidade do sistema humano foi integrada numa única unidade, em que corpo, mente, inteligência, consciência e alma se reúnem […] Embora a ciência, a medicina e a psicologia tenham feito notáveis progressos ao longo de muitos séculos, nenhuma delas pode definir a fronteira entre corpo e mente, ou entre mente e alma. O Yoga é um caminho para alcançar a integração. Mas de onde vem o estado de desintegração? Decorre das aflições da vida: da falta de conhecimento, de entendimento, do orgulho, dos apegos, do ódio, da malícia, do ciúme e da inveja. Estas são as causas das aflições responsáveis pelas doenças físicas, mentais, espirituais.” B. K. S. Iyengar. Saúde como Totalidade. In Árvore do Ioga, parte III – Ioga & saúde. Tradução Maria Silvia Mourão Netto. São Paulo: O Globo, 2001. 

“Yogah Cittavrtti Nirodhah”. Yoga Sutras de Patañjali 1.2. 

A restrição das oscilações da consciência é Yoga. 
Quando não mais oscilante, a consciência flui integrada entre corpo, mente, espírito, alma de modo fluido, contínuo, envolvendo-os um no outro. Assim o ser torna-se, não só verdadeiramente realizado e único no mundo, mas também uno com o todo.

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Despertar

Guruji B.K.S. Iyengar em Badhakonasana no RIMYI  (Ramamani Iyengar Memorial Yoga Institute), seu instituto em Poona, Índia. 

 
“Uma pessoa não se torna iluminada ao imaginar formas luminosas, mas sim ao tornar consciente a escuridão. Esse último procedimento, no entanto, é desagradável e, portanto, impopular.”
“Sua visão se tornará clara somente quando você olhar para dentro do seu coração. Quem olha pra fora sonha, quem olha pra dentro acorda.”
 
Carl Gustav Jung

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Excessos mentais e emocionais

Excessos mentais emocionais Virabhadrasana 2
O nome popular para EXCESSO DE ATIVIDADE MENTAL/EMOCIONAL é Ansiedade. Sinal dos tempos, de uma cultura que valoriza como qualidade nobre a inteligência mental. Seu excesso deixa a inteligência emocional e a inteligência corporal confusas e, com o tempo, entumecidas, embotadas, ou seja, a médio prazo tende a se avizinhar uma espécie de sensação de insatisfação, como se não pudéssemos “dar conta” de tanta intensidade (e não podemos mesmo, se em desequilíbrio). Ou seja, ironicamente, esta hiperatividade mental torna-se frustração e não estranhamente um início de depressão pode tomar conta. De um pólo a outro, saltando entre estados radicalmente opostos, logo vem a exaustão, a baixa imunidade, e o corpo começa também a padecer.
Cuidar-se antes de chegar a este ponto, permanecendo no fio da navalha, no caminho do meio é a melhor atitude para o equilíbrio psicofísico. O que em hipótese alguma significa se anestesiar. As intensidades são necessárias pra nos manter fortes, mas nunca em excesso. Esta é a difícil arte do auto-estudo.
Em Iyengar Yoga fazemos posturas em pé pra ativar pés, pernas e quadril, pois ao distribuir o excesso de energia mental (que não raro traz tensões na cabeça, pescoço, trapézios e ombros) para todo o corpo ajudamos a “organizar” os pensamentos e sensações.

Ao mesmo tempo, se há agitação mental, o praticante não é capaz, logo de cara, de entrar numa postura restauradora ou “calmante”. Ele precisa primeiro direcionar toda esta energia “para algum lugar”, o que  funciona realizando posturas exigentes fisicamente. Convocar energia física demanda energia mental, e assim as duas se equilibram.

Um bom exemplo é Virabhadrasana 2, postura do guerreiro (imagem acima). O nome já aponta o quanto é exigente. E as flechas que indicam (em vermelho) as ações internas necessárias para conquistar o alinhamento saudável do corpo no Asana, também.

Corpo É mente e mente É corpo. Convocar os dois ao mesmo tempo para a realização de uma tarefa exigente como a execução de um Asana com refinados alinhamentos equaliza nossa energia vital e aprimora a inteligência saudável, aquela inteligência superior, mais completa.
Padrão
Pranayama sentado
Virasana
Supta Badhakonasana
Adhomuka Svanasana
Parighasana
Utthita Trikonasana
Virabhadrasana 1
Salabhasana
Dhanurasana e Chatuspadasana
Salamba Sirsasana
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Curso com Sri Faeq Biria 2013

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